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Perséfone, 20 anos, Terceira

Foi bastante mau, toda a experiência vivida durante a violência. Foram momentos de muita tristeza, momentos com muitos pensamentos, pensamentos esses, suicidas, que é mesmo assim. Mas foi bastante difícil durante esses anos todos que passei, mas o mais difícil era saber que ele era meu pai, e ele devia me proteger, e não fez nada do que era suposto fazer, fazia tudo o que não deveria fazer. Foram momentos muito deprimidos, de tristeza, ódio dele. Foi mesmo difícil, mas hoje supera-se, supera-se tudo.

Sofri violência psicológica, violência sexual, violência física, embora a física era mais exercida contra o meu irmão e minha mãe. Foram basicamente 10 anos da minha vida nessa violência.

Só comecei a perceber que não era normal o que ele fazia comigo, quando estava no 5º ano, quando já se começa a abordar o que é e o que não é correto, o que é o corpo humano, o masculino e o feminino, quando se começou com palestras a abordar assuntos como violência no namoro, violência nas relações, violação, seja esta, de namorados ou não. Foi aqui que comecei a perceber que era vítima. Senti-me desamparada, não queria falar, não conseguia falar com ninguém, nem com minha mãe, porque apesar de tudo, dependíamos totalmente dele, a gente dependia dele, minha mãe não tinha emprego, dependíamos financeiramente dele, tinha medo que ao sair de casa, passássemos ainda mais necessidades em casa.

Para o evitar, evitar o medo e insegurança, só me sentia segura na escola, e fazia de tudo para tentar estar o máximo fora de casa, muitas vezes ia para casa de minha avó. Mas nunca dava muito, era como uma fuga, mas não dava certo.

Ele depois começou com ameaças, e meu irmão começou a perceber que algo se passava comigo e começou a questionar-me. E por fim abri-me com meu irmão, contei o que se passava e passou, pedi depois ao meu irmão para contar tudo a um familiar, ele ligou a minha madrinha para me ir buscar de imediato, fomos apresentar queixa, meu irmão foi e é o meu porto seguro, meu apoio. Tive uma semana com uma procuradora do MP, depois fui encaminhada para apoio psicológico na UMAR, foi algo muito importante no meu processo de superação. Ajuda muito ter alguém que nos apoie.

Senti muito culpa, bastante, senti que deveria ser melhor não fazer queixa, mas depois pensei e percebi que NÃO, a CULPA não é minha, mas sim de quem me fez mal, e que uma pessoa que nos faz mal não tem de estar na nossa vida. No percurso todo da queixa, tive muito apoio, de minha mãe, irmão, de toda a família materna. Não sei como fui buscar forças, nem hoje sei ainda onde fui buscar, apenas sei que já estava tão farta, mas tão farta, e quis foi terminar, apresentar queixa, ir em frente e não desistir.

Aconselho a fazerem queixa, pois ninguém merece passar por isso, mas mesmo ninguém, porque não é saudável, nem para nós nem para quem gosta de nós. Devem fazer queixa, porque temos todos os apoios, 100%, vai haver sempre alguém para nós, para nos ajudar, orientar e dar suporte.

Partilho minha história, porque há muitas pessoas que passam por isso e ninguém diz nada, e é bom e importante saber que há sempre alguém que já passou e falar desse passado para relembrar e alertar que ninguém merece passar por isso e que não estão sozinhos.