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Artemis, 45, São Miguel (Brasil)

No primeiro momento em que nos conhecemos, eu acreditava que ele era o homem da minha vida. No entanto, eu estava saindo de um sofrimento com um ex-namorado que terminou assim do nada. Então, essa nova pessoa apareceu e me apaixonei. Ele expressava sentimentos bonitos e agradáveis, e eu dizia que ele era o homem da minha vida, Meu Deus!

Nossas famílias concordaram em unir-nos, coisa que era boa e belíssima, e para mim, que estava apaixonada, isso parecia a coisa mais maravilhosa. Casamos em dezembro, mas tivemos nossa primeira discussão em janeiro. Na época, nada grave, não houve agressão física. Ele foi para a casa dele, e eu fui para a minha. No entanto, como ainda estávamos apaixonados, ele veio pedir desculpas, trouxe-me rosas, e eu aceitei as desculpas. Prometemos não discutir mais, ficamos um mês juntos.

No mês seguinte, ele veio para Portugal. Como eu trabalhava e tinha minha vida no Brasil, não vim inicialmente. Ele veio sem termos certeza do nosso futuro. Tempos depois, ele me ligou dizendo que já tinha comprado minha passagem e que precisava de mim, não sabia viver sem mim. Eu fiquei encantada, pensando que ele realmente gostava de mim tanto quanto eu gostava dele. Então, fui para Portugal. O primeiro mês aqui foi lindo, maravilhoso, sem brigas. Passou um mês, dois, seis a sete meses muito bons, chegando até a serem excelentes durante dois anos.

Depois, ambos começamos a trabalhar na mesma empresa. Ele conheceu uma mulher lá, e como é natural, as mulheres ficam logo desconfiadas quando algo assim acontece. Ele passou a ficar muito ligado ao telefone, e eu fingia que não estava acontecendo nada. Até que um dia, flagrei a situação e o confrontei. Ele respondeu que não era nada disso, e eu o perdoei novamente. No entanto, os sentimentos foram mudando, e o amor que eu sentia por ele já não era o mesmo.

Um dia, falei com ele e disse que precisávamos conversar e nos entender, pois a situação não estava boa, e mal nos falávamos. Ele respondeu: “Vamos fazer as pazes!” e assim o fizemos. Eu mencionei que meu foco era buscar minha filha no Brasil, fui buscá-la e retornei com ela. Foi nesse momento que as coisas mudaram, pois, minha filha era pequena, e eu tinha de dedicar atenção a ela. Acredito que isso mexeu com ele, e ele começou a se sentir inferiorizado, embora eu não saiba explicar exatamente porquê.

Então, ele passou a criticar a forma como eu cuidava da minha filha, dizendo que eu a protegia demais, e foi aí que as críticas começaram. Eu tentava acalmar as coisas, apaziguar a situação. Alguns meses depois, engravidei do meu filho. No início, foi um choque, pois minha filha já tinha 10 anos, mas fiquei muito feliz, assim como ele, e todos nós estávamos contentes. A gravidez correu lindamente, e tudo estava indo bem até o nascimento do bebê.

No entanto, alguns meses após o nascimento do meu filho, por volta de cinco meses, ele me avisa que um amigo dele estava vindo morar em nossa casa. Fui pega de surpresa e não gostei da situação. Questionava como alguém poderia vir para nossa casa sem ele falar comigo, especialmente em uma casa pequena, com alguém desconhecido. Esse amigo chegou, o recebi e tratei bem, mas logo percebi que não queria mais tempo na nossa casa, especialmente por termos uma filha pequena.

Mais tarde, descobri que esse amigo era viciado em drogas e saía frequentemente com meu ex marido. Foi nesse momento que tudo mudou. Meu ex-marido chegava em casa transformado, e eu não conseguia entender o que ele fazia. As brigas e discussões começaram, até que um dia na casa de um casal amigo, numa festa, com meu filho bebé de colo, eu fiquei alterada porque queria ir para casa, porque o bebé precisava de ser cuidado e não tinha as coisas comigo, aí ele começou a agredir-me na presença do nosso filho bebê e de minha filha, minha filha pegou no irmão para o colo quando ele me empurrou. Lembro-me vividamente de tentar proteger meu filho e minha filha, mas ele continuou agredindo-me, sempre que o empurrava ele agredia, foi aí que levei o primeiro soco. Uma amiga presente na casa interveio, ajudando-me a escapar e buscar socorro. Lembro de pedir ajuda a um vizinho, mas ele não abriu a porta ao perceber que era uma briga de casal. Retornei à mesma casa, magoada e envergonhada, e o episódio deixou marcas profundas em minha filha, que persistem até hoje.Parte superior do formulário

Depois, em casa, ele pediu desculpas, prometendo que aquilo não voltaria a acontecer, afirmando que era o pai do nosso filho, e eu acabei por desculpá-lo. No entanto, as desculpas tornaram-se frequentes, dando início a uma tortura psicológica. Ele dizia coisas como “você não é nada”, “não é capaz”, “está sozinha”, sempre tentando me desvalorizar, me inferiorizar e me manipular intensamente. Ele não era capaz de me dar apoio ou elevar-me; pelo contrário, constantemente tentava colocar-me para baixo.

 

Quando ele começou a trabalhar, não conseguia manter o emprego por muito tempo. Sempre que voltava do trabalho, ia para o café, e na maioria das vezes, ao chegar em casa, era para discutir. As coisas precisavam ser do jeito dele, e eu não aceitava isso. Num determinado dia, ele chegou em casa tão bêbado que caiu. Eu estava com meu filho, e fomos ajudá-lo, mas ele começou a insultar, acusando-me de ter amantes, xingando-me. Não conseguia ficar calada, o que intensificava as brigas. Numa dessas discussões em que o confrontei, ele voltou a agredir-me, tentando sufocar-me. Meu filho de 10 anos tentou tirá-lo de cima de mim, e eu pedi para ele fugir e pedir socorro. Ele saiu gritando para a rua, chocando as pessoas ao redor, pois para os outros, ele aparentava ser uma pessoa boa.

Consegui fugir da situação, uma vizinha ajudou-me, e passei a noite na casa dela até as coisas acalmarem. Naquele momento, questionei-me sobre como as coisas haviam chegado a esse ponto. Pensava que, se o deixasse, ele poderia me matar, pois ele fazia ameaças. Contudo, devido à manipulação e ao medo, permaneci na relação.

Após as brigas, ele costumava fazer um jantar para tentar reconciliar-se, mas eu já não conseguia aceitar, pois quase todos os dias ele me xingava, humilhava e maltratava. Em determinado momento, disse a ele que ganharia coragem e o deixaria, indo embora, ele não acreditava.

Passaram-se alguns anos sem brigas, pois comecei a evitar responder para evitar conflitos. No entanto, quando ele discutia com meu filho e eu o confrontava, as coisas continuaram. Infelizmente, não percebi que meu filho estava sofrendo intensamente e que sua saúde mental estava afetada. Devido ao trabalho, não conseguia identificar os sinais até que finalmente percebi. Decidi que, na próxima briga, iria embora.

Algumas semanas depois, ele bebeu muito, pois já tinha esse hábito compulsivo. Naquele dia, chegou alcoolizado, e as coisas ficaram fora de controlo. Ele tentou me agredir, mas meu filho, agora adolescente, interveio e enfrentou o pai. Chamamos a polícia, que, ao chegar, eu senti dó dele e, pensando que seria pior para o meu filho, optei por não apresentar queixa. No entanto, quando a polícia saiu, a situação piorou. Ele ficou mais agressivo, e nos trancamos no quarto. Meu filho ouviu o pai dizer que nos mataria. Com medo, permanecemos fechados no quarto, e quando ele se acalmou, decidimos sair de casa.

Pegamos apenas nossas bolsas e roupa do corpo e saímos imediatamente, com ele nos insultando. Fomos para Ponta Delgada, sem rumo, até que uma senhora nos ajudou e indicou a localização da casa de apoio à vítima. Bati à porta, pedindo socorro, e assim recebemos ajuda. Agradeço por todo o apoio que nos foi oferecido.

A mensagem que gostaria de transmitir às mulheres que enfrentam essa situação é que somente quem passa por isso sente a urgência de gritar, a angústia de escapar, a necessidade de buscar uma explicação e ajuda, mesmo quando parece que não temos ajuda. No entanto, é importante não desistir, nunca, porque nenhuma mulher merece sofrer. Não há necessidade de sofrermos, pois Deus nos coloca aqui para sermos iguais e praticarmos o bem. Encorajo essas mulheres a orarem a Deus, pois Ele nos oferece ajuda e força, e a fé é um elemento significativo, independentemente da religião. Todas nós temos o direito de ser felizes. Quem busca a felicidade deve estar disposto a abrir mão de tudo o que a ameaça e não permitir que ninguém nos tire a vida. Mesmo que hoje possamos perdoar, quando os atos são cometidos sem intenção, amanhã podem se repetir e, ao perdoarmos novamente, a próxima agressão pode ser mais intensa. Isso inicia um ciclo de questionamentos, medo e esperança de mudança, mas a violência continua e as agressões tornam-se mais severas, muitas vezes sem solução, até que, muitas vezes, a vida é tirada, destruindo várias vidas e fazendo com que nossos filhos sofram profundamente.

É importante prestar atenção aos pequenos detalhes no início de uma relação, porque quando eles forem maus filhos, maus amigos, serão maus em tudo, e se formos espertas, temos de fugir, não vale a pena, porque será sofrimento e não felicidade, será uma relação tóxica.

Atualmente, compreendo o que significa estar em paz. Antes, não entendia, mas hoje sei e experimento essa sensação de tranquilidade. Antigamente, mesmo estando acompanhada, sentia-me só e triste, comprometendo minha saúde mental. Decidi que era o momento de parar, recusando-me a me magoar mais.

Encontrei muitos desafios pela frente, mas essas experiências fortaleceram-me, pois reconheço que nossa paz de espírito é o mais importante, valendo mais que qualquer outra coisa. Quando estamos bem, em paz, conseguimos lidar melhor com outras situações da vida. Passei por todas essas adversidades, sobrevivi, lutei e estou agora em um estado de felicidade, superação e paz. O caminho a seguir é sempre em frente, sem olhar para trás.

É importante lembrar que ninguém tem o direito de nos roubar a felicidade. Ninguém é dono de ninguém, cada pessoa merece respeito, dignidade e a oportunidade de viver uma vida plena e feliz.

Ninguém tem o direito de tirar nossa felicidade. Ninguém é dono de ninguém. A mensagem que deixo para as mulheres que sofrem é que somente quem passa por isso realmente sente o desejo de gritar, a agonia de sair, a vontade de buscar uma explicação, de ajuda, mesmo quando pensamos que não temos. No entanto, não podemos desistir. Nenhuma mulher merece sofrer. Não há necessidade para isso, pois Deus nos coloca aqui para sermos iguais e fazer o bem.

O meu conselho é que não desistam de vocês mesmas. Só temos uma vida, e não é para ser vivida no sofrimento, mas para sermos felizes. Deus nos dá a oportunidade de encontrar a felicidade, e se caímos, devemos levantar-nos e seguir em frente, sacudindo a poeira e dando a volta por cima. Não se entreguem ao sofrimento, pois é a pior dor que o ser humano pode sentir. Viver de aparências e estar destruída por dentro não é viver.

Eu acredito que as mulheres têm a força necessária para lutar contra o sofrimento e superá-lo, pois, somos guerreiras. Todas as mulheres são extraordinárias; nós fazemos tudo, geramos vida, e, por isso, devemos exigir mais respeito por nós mesmas.

Partilho a minha história porque estou dando voz a todas as pessoas que sofrem com isso. Amor e casamento não devem ser sinônimos de maltrato e sofrimento. Espero que minha história inspire coragem para sair, assim como eu fiz. Levei 23 anos, mas hoje estou em paz, e não permitirei que mais ninguém tire minha felicidade e paz. Procurem ajuda, não fiquem com medo, mas sim coragem.