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Janela Sobre o Passado... abril de 2020

2020-04-30

Ao longo do século XVIII publicaram-se, em Portugal, alguns escritos misóginos que refletiam as mentalidades dominantes. A estes reagiram algumas mulheres que podemos considerar como pioneiras do feminismo português. Em 1715, foi dado ao prelo um folheto de cordel intitulado Bondade das Mulheres, cuja autora assinava como Paula da Graça, natural da Vila de Cabanas e assistente na Corte. O seu objetivo foi o de contrapor um antigo poema do madeirense Baltasar Dias, de seu título Malícia das Mulheres, escrito no século XVI e com mais uma edição em 1713.

Se o poema critica o sexo feminino, considerando as mulheres como seres perigosos e imperfeitos, a defesa de Paula da Graça não só elenca as maldades que os homens infligiam às mulheres (ciúme, desprezo, infidelidade, crueldade, ingratidão), como exalta as virtudes femininas. Entre a sua argumentação, destacam-se ideias como "se Eva tentou Adão, Maria redimiu a humanidade; só uma mulher ficou do lado de Cristo quando foi condenado por Pilatos; se às mulheres fosse permitida a mesma educação que aos homens, seriam tão aptas como eles a participar na vida intelectual” (V. Anastácio, 2013).  Paula da Graça foi uma importante voz feminina e feminista, de setecentos, da qual pouco se conhece. Há quem alvitre ter sido ela aia da rainha D. Maria Ana de Áustria, esposa de D. João V, por dizer-se “assistente nesta Corte”, além de que o seu folheto foi impresso na tipografia régia (B. Ruiz, A Retórica da Mulher em polémicas de cordel do século XVIII, 2009). Porém, é bem possível que tenha escrito sob um pseudónimo e aí abrem-se mais hipóteses. Poderá ter sido uma freira ou uma importante dama da corte, numa época em que a mulher casada precisava da autorização do marido para publicar um livro. A segunda grande voz feminista portuguesa do século XVIII foi Gertrudes Margarida de Jesus. Tal como a sua antecessora, recorreu ao folheto de cordel para responder a um autor anónimo, em Cartas Apologéticas em Favor e Defensa das Mulheres (1761). Além de apresentar uma lista de mulheres cultas, que se distinguiram na História, a autora defende que se fosse concedido a todas a liberdade de frequentar aulas e universidades “seria a maior parte delas sapientíssimas [sic]; pois vemos terem havido muitas de tão alta compreensão e engenho que, ainda sem Mestres e sem exercício, têm feito admiráveis progressos, assim nas letras, como nas manufacturas”. (V. Anastácio, 2013). Sobre Gertrudes de Jesus nada se sabe, a não ser que citava em latim e conhecia obras francesas contemporâneas. Trezentos anos antes vaticinou o futuro das mulheres portuguesas, hoje em larga maioria no ensino superior. 

|| Susana Serpa Silva   (susana.pf.silva@uac.pt)

Asas da Igualdade, 30 de Abril, 2020, Açoriano Oriental

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A página Nas Asas da Igualdade foi lançada pela UMAR-Açores, integrada no projeto com o mesmo nome, desenvolvido em 2007 Ano Europeu da Igualdade e prossegue desde então até aos nossos dias



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